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OS MAPAS CORPÓREOS VISTOS COMO CARTOGRAFIAS AFETIVAS: percepções da prática realizada em Barbacena,

  • 22 de ago. de 2017
  • 4 min de leitura

Na pesquisa desenvolvida pelo Laboratório Poéticas da Afetividade, consideramos a arte como um aspecto prático de nossa vida cotidiana, já que ela, a própria prática de criação artística, se constitui num “fazer” (poíesis). Desse ponto de vista, o fazer artístico – vinculado à experiência particular e ao modo de ser daquele que cria – é uma experiência exercida num tempo e num espaço, constituindo-se como construção de conhecimento. No artigo publicado no livro Pedagogias das Artes Cênicas: criatividade e criação, menciono que


a domesticação a que é submetido o corpo cotidiano é capaz de emudecê-lo, de torná-lo inábil para a narração enquanto compartilhamento de experiências, privando-o do tempo da imaginação e da rememoração. Inibido de estabelecer experiências no aqui-e-agora, o corpo tem subnutridas a sua memória, a consciência de si e as suas potencialidades discursivas. (FRANCELINO, p. 143, 2017)


No que se refere a ensino-aprendizagem em artes cênicas, a prática do mapeamento/cartografia do estado afetivo e criativo do corpo permite ao praticante uma visada historiográfica de si, princípio para uma percepção crítica e ética das relações que estabelece com o outro e com o meio circundante. Ao mesmo tempo, o atuante tem a chance de avaliar seu próprio estado após passar pelas experiências que lhe são propostas. Neste ínterim, o docente/propositor das experiências pode perceber os impactos de suas propostas no que se refere à ampliação da liberdade, da autonomia e da potência de agir dos atuantes no percurso criativo, sobretudo quando temos a oportunidade de tecer agenciamentos que prezem pela equidade, pela polifonia e pelo cuidado de si nas relações que permeiam o ensino-aprendizagem para a cena.

No workshop "Afetividade na criação cênica: Mapas Corpóreos, realizado em julho na cidade de Barbacena(MG), tivemos a participação de pessoas que exercem diferentes relações com a cena, entre artistas, estudantes, educadoras/es e pesquisadoras/es. Em um dos depoimentos, a artista e graduanda Fernanda Diniz relata que, o primeiro dia de encontro serviu para “perceber os funcionamentos físicos de cada um – seja na respiração ou na movimentação – e um ritmo em conjunto mesmo com tais diferenças. Esse ritmo criado pela relação seria, talvez, a troca entre os indivíduos inseridos na experiência?” (Fernanda Diniz, graduanda em teatro).


O primeiro mapeamento trazido pelo workshop propõe uma prática historigráfica do eu-corpo: a construção de uma imagem de si a partir das marcas, vestígios e sensações elencados pela experiência sensível do corpo – que podem ir desde características físicas como manchas, tatuagens ou cicatrizes, até recordações do passado ou desejos de futuro. Por esse motivo, já no primeiro encontro foi proposto o primeiro mapeamento corpóreo para que cada participante, estando frente-a-frente com a representação cartográfica de seu corpo, pudesse (re)construir a leitura particular de si e compartilhar a narrativa oralizada de sua própria história.


No segundo mapeamento, realizado no terceiro dia de trabalho, o objetivo era a apresentação de sua autoimagem atualizada pelas experiências e afetos despertados pelas práticas realizadas durante o workshop, a fim de que a/o participante pudesse avaliar, através da justaposição dos dois mapas, os efeitos/afetos das práticas e encontros realizados durante o trabalho. Abaixo seguem seus mapas corpóreos construídos no primeiro e no último dia de trabalho:

Mapas corpóreos de Fernanda Diniz: realizados, respectivamente, no primeiro e no último encontros.

Segundo Fernanda, da prática do mapeamento corpóreo ficou “a consciência do movimento da vida, seja por um ritmo interno, ou pela relação deste com outros ritmos. Como nosso corpo é captador de estímulos e transformador destes, esse processo ocorre a todo momento mas não nos deixamos afetar pela prioridade que damos para outras questões” e continua:


a criação existe pelo afeto, afinal é necessário que uma estrutura se afete para assim surgir mudanças, destruindo a forma antiga e trazendo a criação de algo novo. Estamos sendo afetados o tempo todo, criando e destruindo de acordo com o afeto de vários estímulos ao longo da vida. (DINIZ, 2017)


Da justaposição do primeiro mapa de Fernanda em relação ao segundo, podemos destacar, neste último, a presença de cores mais vivas e variadas, a representação de traçados, movimentos e cores “além” do corpo, que já não apresenta mais o limite divisório entre o dentro e o fora. De modo geral, além dessas características apontadas, predominou nos últimos mapas dos demais participantes: uma representação do próprio corpo de forma menos segmentada, com traçados mais fluidos, apresentando uma relação mais harmônica entre suas partes; traçados mais fluidos também na representação do próprio corpo em relação com o ambiente externo, com a presença de formas que atravessam a representação do corpo com um preenchimento mais dinâmico ao redor; além de uma maior liberdade em se auto-representar pelo desenho, com propostas de representação do corpo em formas menos rígidas ou formais e que podem tender para a abstração, alegoria ou para uma expressão mais livre da própria imagem.


O corpo eu não quis desenhar porque o tempo todo a gente está passando por sensações e o tempo todo isso está acontecendo. E o que a gente recebe é o nosso corpo mas está para além do corpo e acho que está ligado à sensibilidade. No meu caso eu tentei passar, não a consciência, mas tentei ampliar essa sensibilidade de perceber mais as coisas acontecendo, tanto no meu corpo quanto no ambiente, e ver como esse processo influencia. […] No caso ele é um reflexo do exterior: o que vem reflete na gente e a gente responde com várias “cores”. (DINIZ, 2017)


As experiências ocorridas durante o workshop permitiram ao Laboratório Poéticas da Afetividade dar um enfoque especial à confecção dos mapas corpóreos, prática esta que pode ser compartilhada em quaisquer trabalhos que pretendem uma integração do sujeito da cena com seu próprio corpo e seu entorno. O reencontro do atuante com a sua história pessoal e o reconhecimento da relevância dessa narrativa para uma realidade coletiva pode ser uma potente experiência, uma vez que as experiências particulares não encontram respaldo nas narrativas oficiais. Pensar, pois, o corpo como uma cartografia das experiências vividas, reforçando o caráter político da memória, pode ser uma importante estratégia para o artista-docente no agenciamento de estímulos criativos que instiguem o praticante da cena no desenvolvimento de uma autonomia discursiva no acontecimento cênico.



REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


DINIZ, Fernanda. Relatos dos mapas corpóreos. Depoimento concedido a Elton Mendes Francelino. Barbacena, Brasil, 24-26 de julho de 2017.


FRANCELINO, Elton Mendes. Po-ética, o corpo como território da experiência. In: MUNIZ, Mariana Lima; CRUVINEL, Tiago Brito (Orgs.) Pedagogia das Artes Cênicas: criatividade e criação. Série Encontros, v. II. Curitiba: CRV, 2017, p. 137-148.

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